quarta-feira, 20 de março de 2013

como água gelada

a música começou no rádio, de surpresa, como aliás são quase sempre as músicas do rádio, era por isso mesmo que gostava de manter o som sempre ligado, era para trazer as canções que nunca pensava em ouvir. chegou e a pegou desprevenida como um objeto atirado do alto de um prédio, um golpe inesperado, o encontro desastrado com alguém que surge pela frente, na rua, sem aviso. as imagens apareceram em seguida, dos mais diferentes lugares, ela deixando a escola aos dezesseis anos, depois da aula, de walkman na mochila, fone nos ouvidos, ideias de poemas na cabeça, apanhando o ônibus para algum canto da cidade que ainda não havia pisado, por qualquer razão que não lembrava agora, mas com aquela sensação de desbravar a vida, que ela então conhecia tão pouco e parecia tão imensa e cheia de caminhos, tão diversa de agora, quando, depois e apesar de todos os passeios e viagens, era tão limitada e finita. as imagens a percorriam enquanto algo próximo ao terror rolava como água gelada pelo peito até a boca do estômago, um arrepio da consciência que ela teria evitado, se não fosse o rádio. depois o incômodo começou a ceder, pouco a pouco, a música passou a soar inofensiva, ela respirou fundo, tomou um gole de café, retomou o trabalho, esqueceu da vida. e, só por precaução, desligou o som.

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