segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

natureza morta

flocos de milho
palavras perdidas
sementes de coca-cola
na grama pisoteada

uma sombra recortada
uma soneca, um avião
sementes de guaraná
na grama transplantada

cintilantes embalagens
garrafas amassadas
sementes de fanta uva
na grama amarelada

bíblias encadernadas
corações partidos
sementes de jesus
na grama amarrotada

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

(sem título)

massa de vermelho
no interior azul
gritos borrados
rostos abafados
batuque nu

no jardim,
as plantas secas
as árvores esqueléticas
a cadeira a balançar

casas invertidas
asas invertebradas
camas repartidas
esperança que salta
sobre as telhas
cor de terra
até despencar
até cair
e fraturar
o sonho

bala no mapa
miolo-gelatina
abre-se a cortina
sobre o corpo
que germina

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

antropofagia

canibais de aproximam, em silêncio. cercam o cadáver: um corpo estirado, inerte sob o sol, atravessado de um lado a outro por um fresco filete de sangue.

famélicos, vorazes, eles o cobrem como bichos. cheiram, fungam, revolvem e reviram o defunto. arrancam com unhas e dentes colares, relógios, anéis e pulseira. devoram cinto e sapatos de couro. deglutem algodão egípcio, jacarés e cavalos montados.

satisfeitos, se vão. deixam para trás apenas o resto. o corpo nu, o filete de sangue, o homem.


(((enxuga)))

antropofagia
canibais rodeiam em silêncio
o corpo inerte sobre o chão
fungam cheiram resfolegam
famélicos vorazes e ferozes
cravam dentes, saliva e unhas
em anéis relógio algodão egípcio
satisfeitos, se vão velozes
deixam para trás somente o resto
o defunto nu, o morto, o homem

sábado, 8 de dezembro de 2018

lastro

totem
dente
ferrugem

lâmina
na noite
na nuca
oxidada

ente
barco
origem

a margem
a pedra
o estilhaço
de papel

carinho
corrente
vertigem

portos,
aeroportos
sintomas
de saudade

a tesoura
na nuvem
tempestade

horizontes
um mapa
uma rede
no anelar

correios
celas
tabuleiro

pó e fumaça
cifras de
um mundo
pós-verdade

sangue
cinza
arenoso

cenas de
um brasil
que é outra
cidade

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

canção do exílio

pássaros cantam contra o céu que prenuncia chuva. pássaros calam sob a tempestade

sábado, 8 de setembro de 2018

tão século vinte e um

assim, diante do vulcão em ebulição, ela se sente refrescar.

a corda, amor

sentiu uma mordida no estômago
levou a mão à barriga, sem pensar:
encontrou ali, saindo pelo umbigo,
um fio áspero, fibroso, ressequido

passou os dedos, leu a ondulação,
eriçada qual cabelo maltratado
e puxou com força, de uma vez,
na tentativa de apagar o espanto

puxou e puxou, duas mãos na ação,
o fio trançado sinuoso e volteado
até enrolar diante de si uma corda
encardida encrespada e encarnada

suspirou, amolecida de cansaço,
se recostou laranja na cadeira
passou de novo a mão no ventre
oco, murcho, cavo. e gotejante

sábado, 1 de setembro de 2018

Como entreter crianças em dias de chuva

(valeu, yoko)

Apoie a mão sobre uma superfície lisa, a palma para baixo. Abra os dedos, de modo a deixar um espaço entre polegar, indicador, médio, anelar. Mindinho.

Apanhe uma faca, faça furos. Na superfície lisa. Entre os dedos. De modo a sentir medo, mas não se machucar.

Encha um copo de gasolina. Despeje sem pressa sobre a língua. Risque um fósforo até surgir a chama, incandescente. Deite o fogo sobre um pequeno rolo de pano, embebido em álcool. Cuspa para ver o fogo ganhar forma.

Grite. Berre. O mais alto que puder. E, quando tudo ficar silencioso, urre. De novo. E mais uma vez. Até faltar voz. Até faltar ar.

Inspire. Se sente. Coluna reta, pernas indianas, olhos fechados. Boca aberta para expirar. Inspire. Sinta o ar que entra e que sai, em orgânica surdina. Estire a língua. Mostre ao primeiro que aparecer.

Enfie um dedo na orelha. Escolha um indicador. Decida a orelha. Roce, com a unha, a superfície labiríntica onde se acumulam pó, cera, fungos. Cavouque até recolher material suficiente. Enrole com ajuda do polegar. Faça uma trouxinha e lance no ar.

Mão fechada, estique o braço como se fosse doar sangue. Cruze o outro braço por cima, na altura do cotovelo, e dobre o braço de baixo até prender ali o braço de cima, numa banana.

E reze para a chuva passar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

da natureza

e o céu se acende e se apaga, de dia e de noite, indiferente à gente.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

o dia de

antes de sair de casa para o dia fatal, ela conferiu se os filhos respiravam na caminha. alívio. um problema a menos.

sino

quem é que dorme com esse som dentro da cabeça?

terça-feira, 31 de julho de 2018

véspera

a chuva na janela romanceia o mundo.

mas lá fora é frio, é feio, é sujeira pelo chão. é rádio fora de sintonia, é nenhuma estação.

o ônibus corre, os carros em zigue-zague. os relógios, tal espetos, se sucedem no atraso. não há tempo. tempo nunca houve.

por isso a linha laranja que traça a bicicleta entre os automóveis. por isso a esperança. por isso a mãe que leva o filho pela mão para a escola. por isso o homem que vende guarda-chuva e água mineral para quem passa a pé. por isso.

domingo, 29 de julho de 2018

eclipse

era nuvem
era noite
era espera

era a névoa
infinda
dentro de mim

crianças interrogavam o céu
preto, amarelo, cinza, azul
-- ainda falta o vermelho!

no peito
na garganta
no ventre

era a neblina
a nos permitir
a consumar a gente

quarta-feira, 25 de julho de 2018

respiração

uma verdade curiosa dessa coisa chamada vida é que, se algo provoca muita ansiedade, a frustração pode ser um grande alívio.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

epitáfio

amei
mais do que cabia em mim
senti
por todos os poros e silêncios
perdi
tanto quanto eu devia ganhar
gravei
episódios que eu queria no ar

pulmão pulso coração
espiral bolha sabão
noite tarde fria insolação
um suspiro em cada mão

sábado, 16 de junho de 2018

cartografia pessoal

são como pontos distantes no mapa
quando se fecha a carta, tal dobradiça,
eles se aproximam, se tocam, se unem
mas, quando o mundo se expande,
se afastam como quem se repele.