domingo, 24 de maio de 2009

alicerce

passei a vida inteira atirando pedras em um rio que havia perto de casa. sempre que alguma coisa me aborrecia, sentava à margem e arremessava uma pedrinha na água, só para sentir os círculos que se formavam com o lançamento dissiparem a minha dor. eles pareciam levá-la a todas as direções, dirimindo o meu desespero entre as sombras das aves e as borbulhas dos peixes. era quase religioso para mim: não havia tristeza que eu não curasse com uma pequena pedra na água. quando me abriram, no dia da autópsia, encontraram, assentadas no fundo do meu estômago, todas as pedras que atirei na vida.

terça-feira, 19 de maio de 2009

privado (hq2)

e o homem dizia, com as mãos no pescoço da mulher: você me sufoca, vo-cê me su-fo-ca.

profecias (hq1)

subiu até o alto da montanha, mergulhou o dedo na boca e, depois de testar a temperatura do ar e coçar sem pressa a longa barba grisalha, disse a si mesmo, firmemente convicto: não era nada do que eu esperava.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

enfim...

avenida paulista - enfim, restituída. livros giram nas bancas de jornais. notícias fermentam no estômago do céu. pessoas para cá e para lá. pessoas para todos os lados. e eu alegremente perdida entre elas. o velho colégio com cara de novo - já tem aulas de ecologia, desconfio... as mesmas escadarias povoadas de lembranças. a memória faz cócega. um cheiro de passado tentando o nariz da alma. o cris perguntando da thula, os esconderijos dos primeiros cigarros, o jogo de cartas, as imagens cafonas de igreja mostrando exatamente o que são: cafonas. e uma tv de plasma me dizendo que o tempo passou - que bom. estudantes correm. cabeças leves de não saber que o são. e outras a peso de morte me lembram o menino triste que perdeu a formatura porque decidiu comemorar sozinho, no seu quarto, enquanto a família o esperava na sala, toda arrumada para cerimônia que não veria. os espinhos da adolescência lentamente arracados da pele, degrau a degrau. lentamente. e então o sentimento estranho, mas maravilhoso de me saber ali, com enorme gratidão por tudo, e ao mesmo tempo um infinito alívio por não pertencer mais àquilo. de estar livre, enfim.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

amém

sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre.

domingo, 3 de maio de 2009

histórias de sebo (parte 4)

senhor só
era um homem muito sério, o só. por nunca sair de casa, já tinha esquecido como era falar com as outras pessoas, a língua e as mãos não mais obedeciam. e, quando queria sorrir, precisava pingar óleo na boca. era um homem sério, o só. e era também muito tímido.

sábado, 2 de maio de 2009

histórias de sebo (parte 3)

a língua mágica
respirava cada palavra como o ar que lhe havia faltado por toda a vida. e, em pouco tempo, se percebia permeável às letras, que lhe entravam pela pele, lhe enchiam o sangue, lhe causavam cócegas. ele ria, e ria, e ria. aquela língua significava tudo o que ele queria dizer.

histórias de sebo (parte 2)

precisão
era uma vez um menino muito triste, que não precisava de ninguém. esse menino construiu um esconderijo onde ninguém poderia encontrá-lo. e todo dia ele saía de casa e ia até lá, sem que ninguém percebesse, para escrever cartas para ninguém.

histórias de sebo (parte 1)

maquinismo
eram trilhos paralelos,
nunca se encontravam:
um corria para o futuro
o outro, para o passado.