segunda-feira, 5 de novembro de 2012

espuma

como pode um rio fazer sombra
e dividir o chão
até desenraizar os portos

um rio que é água
e nunca mais será
um rio que é reflexo
e sempre é presente

um rio que guarda as palavras
atiradas das margens
pichadas nos muros
coladas nos cascos dos barcos

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

jasper johns

era um círculo numa superfície lisa e ela não sabia se era a base de um copo ou um alvo demarcado num mapa. bandeiras brancas indicavam nações sem pátria, postos prontos a te receber. ruídos azuis riscavam a programação do rádio, vozes anunciavam músicas que não chegavam a tocar.

na galeria, a mão que rasgava a tela também misturava as cores e as manchetes do jornal, a alta da inflação, o crime de corrupção em brasília, a volta do litoral no fim do feriadão, a última pesquisa para as eleições. o tempo escorria pela margem, tal lágrima escura. a vida se espalhava feito mancha entre os quadros.

ela não estava em cartaz.

terça-feira, 19 de junho de 2012

as últimas palavras

urubus cantam
seu canto térreo
no céu, gaivotas conversam cacarecos
num idioma que não se precisa traduzir
só assim os sons são alegres entre si

ainda

a impureza do branco sob os meus sonhos encardidos. o nome riscado na mesa. a toalha manchada. a roupa que perdeu a forma. o corpo que perdeu o jeito.

é preciso sangrar - ainda que em gotas
é preciso chamar - ainda que em silêncio
é preciso partir - ainda que para voltar ao mesmo lugar

sábado, 31 de março de 2012

ano novo

moldura de coisa nenhuma. neve de plástico
pende da porta da casa em pleno verão
céu preto, feridas cor de prata
as bijuterias do réveillon
folhas que viram em branco
calendário que renova o medo
aperto que não tem conserto
soa uma canção de despedida
eu finjo não saber de quê
mas, na verdade,
eu também queria ir

quase

na primeira vez em que quase morreu, pensou em tudo o que não viveu e traçou planos para aproveitar ao máximo cada dia a partir dali. era uma programação intensa, do trabalho para casa, dos livros para o cinema, do cachorro para a igreja. nada ficava de fora.

na segunda vez em que quase morreu, achou que tinha feito tudo errado. o tempo todo correndo, do curso para o bar, da academia para o restaurante, do consultório para o teatro. precisava parar. respirar. sentir a sola do pé. no chão. o corpo todo. rolando. no piso de madeira.

na terceira vez em que quase morreu, se sentiu completamente idiota. programação, desprogramação, nada trazia certeza nenhuma. matou o cachorro. pediu demissão. e viajou. havia, sim, uma moldura de coisa nenhuma. mas já não importava.

na quarta vez, simplesmente morreu. e, sabia, já ia tarde.