sábado, 25 de dezembro de 2010

dores domésticas 2

depois do sexo, o mal estar. o quarto folheado de eu de ele de ele. uma atmosfera grossa e gordurosa. eu saía em seguida, sem palavra. ele dormia ou virava de lado na cama e fingia dormir. eu me vestia e saía, o menor ruído possível. nem tomava banho, levava a sujeira comigo. como punição, como troféu.


***

estou passando mal, disse ao marido. ele, mais incrédulo que preocupado, mais doença que remédio, quis saber do quê. estou passando mal de mim mesma, disse a mulher.

sábado, 18 de setembro de 2010

dores domésticas

era assim a mulher, tão incompleta que se sentia feliz quando o marido adoecia, só por ter de quem cuidar.

* * *

ao ver a mesa arrumada, os pratos alinhados sobre a toalha quadriculada, a comida fumaçando sobre os descansos das panelas, sentiu um medo que não soube explicar.

* * *

a música começou a tocar quando ela mexia, no colo, a massa do bolo de chocolate. era tão perfeita a música e era tão ingrediente daquele bolo, daquela cozinha onde o marido abria uma garrafa de vinho, cigarro fazendo nuvem no cinzeiro, que ela ficou aterrorizada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

à deriva

pequeno barco no asfalto. o que singra é o ontem. cor que já foi. desejo sem porto. lastro sem paz.


* * *

semana de moda

o corpo insuportavelmente ereto.
cínico.
passos fragilmente duros
ao fim de pernas tristes.
peitos estufados (mas que peitos)
para o mundo (mas que mundo?)
e um colorido que podia ser vida,
mas é somente roupa.



papel de parede


raspei a carne até
o coração ficar exposto
para você poder tocar

* * *

a verdade, bicho estranho, se esconde.

terça-feira, 4 de maio de 2010

da vida

então, ela percebeu que precisava crescer. e que crescer não era o mesmo que se tornar grande.

e que a vergonha era uma forma de vaidade.

e que a urgência do contato é ferida do tempo. do tempo que fere, frio, a pele de dentro da gente.

sábado, 20 de março de 2010

tirinha

(da depressão ansiosa)

quadro 1: afundada no sofá, camuflada sob um edredon, ela pede, não quero ver ninguém hoje. nem atender ao telefone! quero que me esqueçam!

quadro 2: mesma ilustração, sem balão e acrescida de uma caixinha com duas palavras, no topo, à esquerda: minutos depois...

quadro 3: mesma ilustração, volta o balão: snif... ninguém se lembra de mim!

domingo, 7 de março de 2010

asfalto ralo

de costas para o dia
nada pode iluminá-la
seu rosto coberto de algas
é apenas espera

de costas para o dia
cerca viva de silêncios
ela só quer poeira
vento tempestade

ela só quer
ela só

de costas para o dia
ela só quer se pôr

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

estudando

entrevistinha minha e do osi para o programa 'perfil literário', da rádio unesp. foi uma delícia fazer junto com ele!
(número 440)

...

e então ela percebeu que aquele tumulto no estômago não era senão o caos que não conseguia digerir.

...

era dessas pessoas que se sentiam mal se desfrutassem sozinhas de um prazer, fosse qual fosse. tanto assim que, ao ouvir a sogra elogiar o seu forno de microondas, que nunca tinha podido comprar, não conseguiu mastigar aquele risoto que era dos seus favoritos - uma receita especial que levava camarão e manteiga. e, no mês seguinte, fez chegar à casa de dona quitéria um presente duro e retangular. um presente que, ainda que comesse um naco do seu orçamento, iria lhe devolver o sabor das refeições.

...

vacilante como o fumante arrependido que torcia pela falência da indústria do cigarro - o qual, por conta própria, não tinha coragem de abandonar.