sábado, 27 de julho de 2019

vazante

nuvem na boca
céu na garganta
chuva que dispara
rastros contra as
as luzes dos carros

sem teto sem
resguardo
a mesa sobre
a montanha
não se molha
não se perturba

ao passo
que na rua

há água pela sola
do sapato há lama
dentro das meias
há serragem pelos
tornozelos há vidro
pelo caminho tinha
uma pedra tem mar

o corpo flutua
o carro navega

até ancorar
sobre cubos
brancos lisos
silenciosos
feito tijolos
até recuperar
o ar por sobre
a cidade
inundada

domingo, 30 de junho de 2019

costura dos dias

a linha
os cortes
nem sempre
reta nem
sempre
paralelos

domingo, 17 de março de 2019

perdão

perdoai-nos, senhor
vós que não pensais
vós que não ouvis
você que apenas transpira

você que não é humano
e não tem pele nem pelos
que se arrepiem de frio

você que não teme
não treme e não tem


você que nunca foi
currado ou estuprado
nunca sentiu a dor do parto
nunca sangrou em toda
a sua santa eternidade

você que não enxerga
que não abre as pernas
que jamais sentiu na boca
a língua molhada e
a saliva quase seca

você, que nunca desejou a mãe
você que não tem mãe
que não tem lágrimas
ou por quem chorar

você que jamais pisou
o tomo do sertão
fosso escuro
chamado coração

sábado, 16 de março de 2019

oração

tragai-me, senhora
e dissipai-me por entre
a fumaça dura das horas

cinza voo livre
divino

absolvei-me leve
batizai-me
com seu bafo

eu vejo, mãe,
como a morte
namora a vida

fazei-me palha
coco coqueiro
braços esticados
peito sem medo

deixai-me respirar
deixa-me pra lá

profecia 13

um dia, numa só puxada, deus o tragou de sobre a terra.

(...)

e todas as vezes que eu te chamava eu falava a mim mesma.

borrifos

somos minúsculos -- microscópicas gotículas de nós mesmos.

terça-feira, 5 de março de 2019

(Ciro)


A lua ainda míngua, e a maré seca em mim as almas dos peixes que morreram. A água bate na pedra, bate na pedra, bate na pedra. E a pedra bate em mim.

O mar me comunica a dor. Quero conchas infinitas que encerrem o conteúdo das coisas, mas tudo ou falta, ou nasce grão de novo, para morrer na sola do meu calcanhar.

Piso numa rocha bamba que me balança. Só agora eu vejo a queda, e despenco pra dentro de mim. O coelho branco me vê e corre, penetra o vão escuro das pedras. É lá que ele está.

Uma onda explode forte, e o marulho agoniza sob o sol. Uma ponta de cigarro. A água escorre e não volta mais, nunca mais a mesma. Molho o pé e a praia já é outra, sempre outra. E outra e outra onda vêm, e a dor fica, pesada no peito, aguardando a erosão.

(25.1.2001)

domingo, 3 de março de 2019

incorpórea

fio de saliva
escorro acesa
por entre bocas
elétricas

dentes amarelos
me recortam

sábado, 2 de março de 2019

costuras

um feixe fino de algodão
escoa pela garganta
e se projeta no ar
quer língua quer encontro

quer raiz aérea
galeria subterrânea
idioma de eulália

duto entre quases e
concretos
entre folhas e
pensamentos

linha entre frutos e unguentos
alavancas e sequazes
alho bolsa cabos
fetos violentados
janelas apagadas
rizomas de patuás
ex-votos e porradas

um panteão de entidades
cruzes danças verbos
ossos aprisionados
em uma pequena
redoma ponto

redoma limpa
asséptica
assimétrica
embora opaca
e rachada
arranhão
na própria pele

pedro

peito aquoso
olhar infinito
itararé infuso

pirata mais manso
dos nossos mares
rebelde em rascunho
micro homem em curso

nara

desenho-poema
de lápis de giz
de ossos e de coração

o risco o traço
que se ilumina
nervos de tinta
nau em furacão

alvenaria

numa janela, a noite
na outra, a queda
num andar, o hoje
em outro, a tinta das horas

um traço, uma parede
reboco, gota de sangue
o tempo na porta
as rugas no lençol

peixe sobre o telhado
tapete no parapeito
labirinto na escada
campainha de mandala

entre na sala de estar
sofá, raiz, a rede branca
entre e se deixe estar
a casa está em construção

domingo, 10 de fevereiro de 2019

viti


cores escorrem pela parede
como catarro de infantes
verde azul amarelo violáceo
o tom do parto quando nasço
as dobras prenhas do lençol
um perfume a cada vinco
as marcas da passagem
à ciência à vida à margem
ranho que desliza incólume
em cada canto da sala de jantar
vida que podia ser de osso
e de esperança e de carne
de correntes que podiam ser
amarrações de nós
arrumações de ar





um latido, rouco,










traga







expira
inspira
sedimenta












mash-up tupiniquim

uma sabiá
de amor e de esperança à terra desce
e a manhã tropical se inicia
as noites que eu não queria
mais prazer encontro eu lá

foi lá e é ainda lá
que eu hei de ouvir cantar
de um povo heroico o brado retumbante
onde canta o sabiá

e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil

minha terra tem palmeiras
que já não há
e o sol da liberdade, em raios fúlgidos
talvez possa espantar

como fiz estradas
num calor girassol com alegria
a imagem do cruzeiro resplandece

um poeta desfolha a bandeira
desafia o nosso peito a própria morte
não permita deus que eu morra
se em teu formoso céu, risonho e límpido
ê bumba iê iê boi

e o teu futuro espelha essa grandeza

histórias do brasil

sambaqui de brasis
folhas de palmeiras
dedilham a textura
da noite espessa
rabiscam miragens
na pele de um país

 vestígios fazendas
têxteis minas rugendas
vermelho sobre o negro
poços escuros febris
petróleo florete
perfurações e moendas

 tanta ave que
não cabe este céu
cemitério de sonhos
lago espelhado
estrelado de balas
dentes plantados
à espera de dragões

 sambaquis de brasis
enormes disformes
feito torres de passado
sobre a areia branca
onde explode a onda

ressaca afro-atlântica

sábado, 9 de fevereiro de 2019

estratégias de ar

sopra o vento

a cama ainda
desfeita
o relógio ainda
atrasado

as mãos dadas
as mãos soltas

o calor que antecede
a ausência
o branco que enegrece
os sentidos

o lençol amassado
o soldado de braço partido

o som do ponteiro
que marca veias e vamos
viseira truncada
respiração fragmentária

pensamento rastreado
travesseiro, o sonho
o traslado

brevitudes

lava no peito
treva no pulmão
dylan jonas
em barravento

molambento
estado de existir

catarro criança
barriga esperança
o canal certo
do eterno porvir

quinhentos
anos sem cúmulo

pena na cabeça
raspada da periferia
rasuras do brasil
pilão da américa

a monocultura
a colônia
a contratura

alhos e pulsos
roxos inchados
na cesta de frutos
sorriem dentuços


domingo, 27 de janeiro de 2019

garganta

papel areia crepon
preto cinza marrom

fuligem pó horizonte
penugem ar anteontem

um corpo uma página
um livro que respira

ainda

destino labirinto
um cartaz a cada esquina

corrente superfície
sanguínea
lanterna lamparina

ainda

ferro

rios cortam como estrias a carne densa da morte

tietê no leito de mim

tapa os ouvidos, narinas, esfinge

brumadinho miraí mariana

a lama mata

meu beijo

sua barba

seu olho

o nós que não quer se pôr

brasis desfilam afiados e armados

eldorado revive

roda viva

um ano

perdido

no calendário

sábado, 19 de janeiro de 2019

presunção

vidente cega
costura farsas 
com as linhas 
da mão

natureza morta #22

areia no peito
range e respira
retém e repele
o ar dos porões

argila na mente
estica e estufa
espreme e expulsa
ao tom de senões

cimento nos olhos
empasta e embota
tranca e transplanta
a cor dos pulmões

semente no ouvido
extrai e expande
almeja e alveja
ao som de botões




terça-feira, 15 de janeiro de 2019

canção do extermínio

quatro armas para cada cidadão de bem
cinquenta e sete milhões de votos
para a pátria de ninguém

na minha terra tem palmeiras
onde canta o aiatolá

a ave que levanta a taça
mia como gata angorá

o ministério tem mais fiéis
que o baú da felicidade
nosso céu, mais tempestades
nossas valas, atrocidades

indígenas, quilombolas,
gays e marielles

um tiro em cada livro
uma ode em cada tiro

não permita deus que eu viva,
aceite e torça por esse vírus

não permita deus que eu morra
de um perdido bolsominion

fado

vislumbra o abismo
comprido aos seus pés

vislumbra o abismo
destino de toda jornada

vislumbra o abismo
suspira e abre os braços

vislumbra o abismo
aderna, mergulha e voa