quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

historietas

1.
quando se sentir só, escreva, sugeriu o pai à filha. no dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrou as paredes da casa cobertas de lápis.

2.
pela porta entreaberta, escapou um gemido, comprido e solteiro, seguido de silêncio. depois, veio o cachorro, com o focinho vermelho de sangue.

sábado, 5 de dezembro de 2009

essencial

às vezes, desejo entregar meu corpo ao sacrifício. entrego tudo: dedos, mãos, braços, pernas, olhos, cabeça. só peço que deixem, arfando e borbulhando de sangue, essa caixa de dores que é o meu peito.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

tempo

as nuvens se fecham sobre o bloco de papel. um breve sol, quase clandestino, seca as tintas da canção. que morrem desentoadas, antes mesmo de se fazerem ouvir. vai chover, deu no rádio. vai chover feio sobre a terra esvaziada.


- agora eu sei: a saudade é o sentimento do tempo.
- é verdade. mas, sem imaginação, não existe memória. nem saudade.


*a saudade é o próprio cheio vazio*

crédito: ilustração de osi nascimento, feita para o livro 'ciranda de nós', editora grua, são paulo, novembro de 2009.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

formalidades

bem, ela diz que está bem. mas existem outras coisas que ela não diz. ela não diz que tem a boca seca e o coração ansioso. que dorme mal, muito mal, sonhando com tudo aquilo que não foi. que não sabe se ainda será. que se angustia com calendários candelabros caleidoscópios. que sente medo de ficar sozinha. que tem pavor de chegar ao fim do mês sem dinheiro para pagar as contas. sem ter rido tanto quanto gostaria. sem ter amado pelo menos um pouco. sem ter sentido saudade.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

melhor

sua presença invisível já não me machuca. já não sinto culpa por ter perdido você antes da perda final e definitiva. que não houve. descobri agora que são duas a morte. ou seriam duas a vida?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

saudade

minha cidade está menor
- a sua casa está vazia.
a carta que queria te escrever
vai morrer sem ver o dia.

mas as árvores de antes ainda estão lá
- sobre as sombras sem rosto
sobre as vozes que ainda zoam
sobre as coisas que você me ensinou.

as árvores ainda estão lá
sobre nós. sobre os idos.
da minha carta as linhas
vão viver sem ter sentido.

(setembro/2007)

terça-feira, 30 de junho de 2009

é um aprendizado, pensou, riscando e aspirando um fósforo. tem um gosto horrível, mas só se sabe provando.

domingo, 24 de maio de 2009

alicerce

passei a vida inteira atirando pedras em um rio que havia perto de casa. sempre que alguma coisa me aborrecia, sentava à margem e arremessava uma pedrinha na água, só para sentir os círculos que se formavam com o lançamento dissiparem a minha dor. eles pareciam levá-la a todas as direções, dirimindo o meu desespero entre as sombras das aves e as borbulhas dos peixes. era quase religioso para mim: não havia tristeza que eu não curasse com uma pequena pedra na água. quando me abriram, no dia da autópsia, encontraram, assentadas no fundo do meu estômago, todas as pedras que atirei na vida.

terça-feira, 19 de maio de 2009

privado (hq2)

e o homem dizia, com as mãos no pescoço da mulher: você me sufoca, vo-cê me su-fo-ca.

profecias (hq1)

subiu até o alto da montanha, mergulhou o dedo na boca e, depois de testar a temperatura do ar e coçar sem pressa a longa barba grisalha, disse a si mesmo, firmemente convicto: não era nada do que eu esperava.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

enfim...

avenida paulista - enfim, restituída. livros giram nas bancas de jornais. notícias fermentam no estômago do céu. pessoas para cá e para lá. pessoas para todos os lados. e eu alegremente perdida entre elas. o velho colégio com cara de novo - já tem aulas de ecologia, desconfio... as mesmas escadarias povoadas de lembranças. a memória faz cócega. um cheiro de passado tentando o nariz da alma. o cris perguntando da thula, os esconderijos dos primeiros cigarros, o jogo de cartas, as imagens cafonas de igreja mostrando exatamente o que são: cafonas. e uma tv de plasma me dizendo que o tempo passou - que bom. estudantes correm. cabeças leves de não saber que o são. e outras a peso de morte me lembram o menino triste que perdeu a formatura porque decidiu comemorar sozinho, no seu quarto, enquanto a família o esperava na sala, toda arrumada para cerimônia que não veria. os espinhos da adolescência lentamente arracados da pele, degrau a degrau. lentamente. e então o sentimento estranho, mas maravilhoso de me saber ali, com enorme gratidão por tudo, e ao mesmo tempo um infinito alívio por não pertencer mais àquilo. de estar livre, enfim.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

amém

sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre.

domingo, 3 de maio de 2009

histórias de sebo (parte 4)

senhor só
era um homem muito sério, o só. por nunca sair de casa, já tinha esquecido como era falar com as outras pessoas, a língua e as mãos não mais obedeciam. e, quando queria sorrir, precisava pingar óleo na boca. era um homem sério, o só. e era também muito tímido.

sábado, 2 de maio de 2009

histórias de sebo (parte 3)

a língua mágica
respirava cada palavra como o ar que lhe havia faltado por toda a vida. e, em pouco tempo, se percebia permeável às letras, que lhe entravam pela pele, lhe enchiam o sangue, lhe causavam cócegas. ele ria, e ria, e ria. aquela língua significava tudo o que ele queria dizer.

histórias de sebo (parte 2)

precisão
era uma vez um menino muito triste, que não precisava de ninguém. esse menino construiu um esconderijo onde ninguém poderia encontrá-lo. e todo dia ele saía de casa e ia até lá, sem que ninguém percebesse, para escrever cartas para ninguém.

histórias de sebo (parte 1)

maquinismo
eram trilhos paralelos,
nunca se encontravam:
um corria para o futuro
o outro, para o passado.

terça-feira, 28 de abril de 2009

o dia seguinte

soprou o vento, despenteando os pensamentos:
céu verde, coração azul, árvores vermelhas.
uma mão fria segurando o tempo
- de tudo, foi o que restou.

encruzilhada

belo berlim
horizonte
rio recife
cruzeiro
das almas
do sul

ou

belo berlim
horizonte

rio recife
cruzeiro

das almas
do sul

aspirina

há qualquer coisa que dói quando respiro.

praça da sé
jerusalém dividida
deuses disputam
as vozes dos profetas

bunda na janela
de um hotel encardido
amor a varejo
no orelhão revestido

anúncios, prenúncios
dos desclassificados
as bancas de jornais
não têm tantos furos

lar

de volta ao colo quente dos amigos.
a melhor família em que nasci.

as luzes mornas do viaduto do chá
os búzios, o coração
são paulo é um sertão
refresco com pregos à venda
na calçada mais suja da sua casa
açúcar com limão
a fome nos olhos
na esquina, a separação
a vida que é assim a pior das doenças
a que mais dói. e que não tem cura.

pequena e triste história de título grande

veio, tocou, partiu.
e eu chorei.

cotidiano

na urgência das horas inúteis
me lembro sempre de esquecer