quinta-feira, 9 de junho de 2011

#internas

sabia que o pensamento era uma espécie de conversa que a pessoa tem com ela mesma. ainda assim, não deixava de se espantar quando, em debate consigo própria, soltava um 'também acho'. sentia medo, nessas horas, de descobrir que sofria de múltiplas personalidades. ideia que logo afastava, concluindo que não, não era possível - e torcendo profundamente para estar certa.

sábado, 25 de dezembro de 2010

dores domésticas 2

depois do sexo, o mal estar. o quarto folheado de eu de ele de ele. uma atmosfera grossa e gordurosa. eu saía em seguida, sem palavra. ele dormia ou virava de lado na cama e fingia dormir. eu me vestia e saía, o menor ruído possível. nem tomava banho, levava a sujeira comigo. como punição, como troféu.


***

estou passando mal, disse ao marido. ele, mais incrédulo que preocupado, mais doença que remédio, quis saber do quê. estou passando mal de mim mesma, disse a mulher.

sábado, 18 de setembro de 2010

dores domésticas

era assim a mulher, tão incompleta que se sentia feliz quando o marido adoecia, só por ter de quem cuidar.

* * *

ao ver a mesa arrumada, os pratos alinhados sobre a toalha quadriculada, a comida fumaçando sobre os descansos das panelas, sentiu um medo que não soube explicar.

* * *

a música começou a tocar quando ela mexia, no colo, a massa do bolo de chocolate. era tão perfeita a música e era tão ingrediente daquele bolo, daquela cozinha onde o marido abria uma garrafa de vinho, cigarro fazendo nuvem no cinzeiro, que ela ficou aterrorizada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

à deriva

pequeno barco no asfalto. o que singra é o ontem. cor que já foi. desejo sem porto. lastro sem paz.


* * *

semana de moda

o corpo insuportavelmente ereto.
cínico.
passos fragilmente duros
ao fim de pernas tristes.
peitos estufados (mas que peitos)
para o mundo (mas que mundo?)
e um colorido que podia ser vida,
mas é somente roupa.



papel de parede


raspei a carne até
o coração ficar exposto
para você poder tocar

* * *

a verdade, bicho estranho, se esconde.

terça-feira, 4 de maio de 2010

da vida

então, ela percebeu que precisava crescer. e que crescer não era o mesmo que se tornar grande.

e que a vergonha era uma forma de vaidade.

e que a urgência do contato é ferida do tempo. do tempo que fere, frio, a pele de dentro da gente.

sábado, 20 de março de 2010

tirinha

(da depressão ansiosa)

quadro 1: afundada no sofá, camuflada sob um edredon, ela pede, não quero ver ninguém hoje. nem atender ao telefone! quero que me esqueçam!

quadro 2: mesma ilustração, sem balão e acrescida de uma caixinha com duas palavras, no topo, à esquerda: minutos depois...

quadro 3: mesma ilustração, volta o balão: snif... ninguém se lembra de mim!

domingo, 7 de março de 2010

asfalto ralo

de costas para o dia
nada pode iluminá-la
seu rosto coberto de algas
é apenas espera

de costas para o dia
cerca viva de silêncios
ela só quer poeira
vento tempestade

ela só quer
ela só

de costas para o dia
ela só quer se pôr

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

estudando

entrevistinha minha e do osi para o programa 'perfil literário', da rádio unesp. foi uma delícia fazer junto com ele!
(número 440)

...

e então ela percebeu que aquele tumulto no estômago não era senão o caos que não conseguia digerir.

...

era dessas pessoas que se sentiam mal se desfrutassem sozinhas de um prazer, fosse qual fosse. tanto assim que, ao ouvir a sogra elogiar o seu forno de microondas, que nunca tinha podido comprar, não conseguiu mastigar aquele risoto que era dos seus favoritos - uma receita especial que levava camarão e manteiga. e, no mês seguinte, fez chegar à casa de dona quitéria um presente duro e retangular. um presente que, ainda que comesse um naco do seu orçamento, iria lhe devolver o sabor das refeições.

...

vacilante como o fumante arrependido que torcia pela falência da indústria do cigarro - o qual, por conta própria, não tinha coragem de abandonar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

historietas

1.
quando se sentir só, escreva, sugeriu o pai à filha. no dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrou as paredes da casa cobertas de lápis.

2.
pela porta entreaberta, escapou um gemido, comprido e solteiro, seguido de silêncio. depois, veio o cachorro, com o focinho vermelho de sangue.

sábado, 5 de dezembro de 2009

essencial

às vezes, desejo entregar meu corpo ao sacrifício. entrego tudo: dedos, mãos, braços, pernas, olhos, cabeça. só peço que deixem, arfando e borbulhando de sangue, essa caixa de dores que é o meu peito.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

tempo

as nuvens se fecham sobre o bloco de papel. um breve sol, quase clandestino, seca as tintas da canção. que morrem desentoadas, antes mesmo de se fazerem ouvir. vai chover, deu no rádio. vai chover feio sobre a terra esvaziada.


- agora eu sei: a saudade é o sentimento do tempo.
- é verdade. mas, sem imaginação, não existe memória. nem saudade.


*a saudade é o próprio cheio vazio*

crédito: ilustração de osi nascimento, feita para o livro 'ciranda de nós', editora grua, são paulo, novembro de 2009.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

formalidades

bem, ela diz que está bem. mas existem outras coisas que ela não diz. ela não diz que tem a boca seca e o coração ansioso. que dorme mal, muito mal, sonhando com tudo aquilo que não foi. que não sabe se ainda será. que se angustia com calendários candelabros caleidoscópios. que sente medo de ficar sozinha. que tem pavor de chegar ao fim do mês sem dinheiro para pagar as contas. sem ter rido tanto quanto gostaria. sem ter amado pelo menos um pouco. sem ter sentido saudade.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

melhor

sua presença invisível já não me machuca. já não sinto culpa por ter perdido você antes da perda final e definitiva. que não houve. descobri agora que são duas a morte. ou seriam duas a vida?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

saudade

minha cidade está menor
- a sua casa está vazia.
a carta que queria te escrever
vai morrer sem ver o dia.

mas as árvores de antes ainda estão lá
- sobre as sombras sem rosto
sobre as vozes que ainda zoam
sobre as coisas que você me ensinou.

as árvores ainda estão lá
sobre nós. sobre os idos.
da minha carta as linhas
vão viver sem ter sentido.

(setembro/2007)

terça-feira, 30 de junho de 2009

é um aprendizado, pensou, riscando e aspirando um fósforo. tem um gosto horrível, mas só se sabe provando.

domingo, 24 de maio de 2009

alicerce

passei a vida inteira atirando pedras em um rio que havia perto de casa. sempre que alguma coisa me aborrecia, sentava à margem e arremessava uma pedrinha na água, só para sentir os círculos que se formavam com o lançamento dissiparem a minha dor. eles pareciam levá-la a todas as direções, dirimindo o meu desespero entre as sombras das aves e as borbulhas dos peixes. era quase religioso para mim: não havia tristeza que eu não curasse com uma pequena pedra na água. quando me abriram, no dia da autópsia, encontraram, assentadas no fundo do meu estômago, todas as pedras que atirei na vida.

terça-feira, 19 de maio de 2009

privado (hq2)

e o homem dizia, com as mãos no pescoço da mulher: você me sufoca, vo-cê me su-fo-ca.

profecias (hq1)

subiu até o alto da montanha, mergulhou o dedo na boca e, depois de testar a temperatura do ar e coçar sem pressa a longa barba grisalha, disse a si mesmo, firmemente convicto: não era nada do que eu esperava.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

enfim...

avenida paulista - enfim, restituída. livros giram nas bancas de jornais. notícias fermentam no estômago do céu. pessoas para cá e para lá. pessoas para todos os lados. e eu alegremente perdida entre elas. o velho colégio com cara de novo - já tem aulas de ecologia, desconfio... as mesmas escadarias povoadas de lembranças. a memória faz cócega. um cheiro de passado tentando o nariz da alma. o cris perguntando da thula, os esconderijos dos primeiros cigarros, o jogo de cartas, as imagens cafonas de igreja mostrando exatamente o que são: cafonas. e uma tv de plasma me dizendo que o tempo passou - que bom. estudantes correm. cabeças leves de não saber que o são. e outras a peso de morte me lembram o menino triste que perdeu a formatura porque decidiu comemorar sozinho, no seu quarto, enquanto a família o esperava na sala, toda arrumada para cerimônia que não veria. os espinhos da adolescência lentamente arracados da pele, degrau a degrau. lentamente. e então o sentimento estranho, mas maravilhoso de me saber ali, com enorme gratidão por tudo, e ao mesmo tempo um infinito alívio por não pertencer mais àquilo. de estar livre, enfim.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

amém

sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre sempre.