quarta-feira, 20 de março de 2013

como água gelada

a música começou no rádio, de surpresa, como aliás são quase sempre as músicas do rádio, era por isso mesmo que gostava de manter o som sempre ligado, era para trazer as canções que nunca pensava em ouvir. chegou e a pegou desprevenida como um objeto atirado do alto de um prédio, um golpe inesperado, o encontro desastrado com alguém que surge pela frente, na rua, sem aviso. as imagens apareceram em seguida, dos mais diferentes lugares, ela deixando a escola aos dezesseis anos, depois da aula, de walkman na mochila, fone nos ouvidos, ideias de poemas na cabeça, apanhando o ônibus para algum canto da cidade que ainda não havia pisado, por qualquer razão que não lembrava agora, mas com aquela sensação de desbravar a vida, que ela então conhecia tão pouco e parecia tão imensa e cheia de caminhos, tão diversa de agora, quando, depois e apesar de todos os passeios e viagens, era tão limitada e finita. as imagens a percorriam enquanto algo próximo ao terror rolava como água gelada pelo peito até a boca do estômago, um arrepio da consciência que ela teria evitado, se não fosse o rádio. depois o incômodo começou a ceder, pouco a pouco, a música passou a soar inofensiva, ela respirou fundo, tomou um gole de café, retomou o trabalho, esqueceu da vida. e, só por precaução, desligou o som.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

espuma

como pode um rio fazer sombra
e dividir o chão
até desenraizar os portos

um rio que é água
e nunca mais será
um rio que é reflexo
e sempre é presente

um rio que guarda as palavras
atiradas das margens
pichadas nos muros
coladas nos cascos dos barcos

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

jasper johns

era um círculo numa superfície lisa e ela não sabia se era a base de um copo ou um alvo demarcado num mapa. bandeiras brancas indicavam nações sem pátria, postos prontos a te receber. ruídos azuis riscavam a programação do rádio, vozes anunciavam músicas que não chegavam a tocar.

na galeria, a mão que rasgava a tela também misturava as cores e as manchetes do jornal, a alta da inflação, o crime de corrupção em brasília, a volta do litoral no fim do feriadão, a última pesquisa para as eleições. o tempo escorria pela margem, tal lágrima escura. a vida se espalhava feito mancha entre os quadros.

ela não estava em cartaz.

terça-feira, 19 de junho de 2012

as últimas palavras

urubus cantam
seu canto térreo
no céu, gaivotas conversam cacarecos
num idioma que não se precisa traduzir
só assim os sons são alegres entre si

ainda

a impureza do branco sob os meus sonhos encardidos. o nome riscado na mesa. a toalha manchada. a roupa que perdeu a forma. o corpo que perdeu o jeito.

é preciso sangrar - ainda que em gotas
é preciso chamar - ainda que em silêncio
é preciso partir - ainda que para voltar ao mesmo lugar

sábado, 31 de março de 2012

ano novo

moldura de coisa nenhuma. neve de plástico
pende da porta da casa em pleno verão
céu preto, feridas cor de prata
as bijuterias do réveillon
folhas que viram em branco
calendário que renova o medo
aperto que não tem conserto
soa uma canção de despedida
eu finjo não saber de quê
mas, na verdade,
eu também queria ir

quase

na primeira vez em que quase morreu, pensou em tudo o que não viveu e traçou planos para aproveitar ao máximo cada dia a partir dali. era uma programação intensa, do trabalho para casa, dos livros para o cinema, do cachorro para a igreja. nada ficava de fora.

na segunda vez em que quase morreu, achou que tinha feito tudo errado. o tempo todo correndo, do curso para o bar, da academia para o restaurante, do consultório para o teatro. precisava parar. respirar. sentir a sola do pé. no chão. o corpo todo. rolando. no piso de madeira.

na terceira vez em que quase morreu, se sentiu completamente idiota. programação, desprogramação, nada trazia certeza nenhuma. matou o cachorro. pediu demissão. e viajou. havia, sim, uma moldura de coisa nenhuma. mas já não importava.

na quarta vez, simplesmente morreu. e, sabia, já ia tarde.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

#internas

sabia que o pensamento era uma espécie de conversa que a pessoa tem com ela mesma. ainda assim, não deixava de se espantar quando, em debate consigo própria, soltava um 'também acho'. sentia medo, nessas horas, de descobrir que sofria de múltiplas personalidades. ideia que logo afastava, concluindo que não, não era possível - e torcendo profundamente para estar certa.

sábado, 25 de dezembro de 2010

dores domésticas 2

depois do sexo, o mal estar. o quarto folheado de eu de ele de ele. uma atmosfera grossa e gordurosa. eu saía em seguida, sem palavra. ele dormia ou virava de lado na cama e fingia dormir. eu me vestia e saía, o menor ruído possível. nem tomava banho, levava a sujeira comigo. como punição, como troféu.


***

estou passando mal, disse ao marido. ele, mais incrédulo que preocupado, mais doença que remédio, quis saber do quê. estou passando mal de mim mesma, disse a mulher.

sábado, 18 de setembro de 2010

dores domésticas

era assim a mulher, tão incompleta que se sentia feliz quando o marido adoecia, só por ter de quem cuidar.

* * *

ao ver a mesa arrumada, os pratos alinhados sobre a toalha quadriculada, a comida fumaçando sobre os descansos das panelas, sentiu um medo que não soube explicar.

* * *

a música começou a tocar quando ela mexia, no colo, a massa do bolo de chocolate. era tão perfeita a música e era tão ingrediente daquele bolo, daquela cozinha onde o marido abria uma garrafa de vinho, cigarro fazendo nuvem no cinzeiro, que ela ficou aterrorizada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

à deriva

pequeno barco no asfalto. o que singra é o ontem. cor que já foi. desejo sem porto. lastro sem paz.


* * *

semana de moda

o corpo insuportavelmente ereto.
cínico.
passos fragilmente duros
ao fim de pernas tristes.
peitos estufados (mas que peitos)
para o mundo (mas que mundo?)
e um colorido que podia ser vida,
mas é somente roupa.



papel de parede


raspei a carne até
o coração ficar exposto
para você poder tocar

* * *

a verdade, bicho estranho, se esconde.

terça-feira, 4 de maio de 2010

da vida

então, ela percebeu que precisava crescer. e que crescer não era o mesmo que se tornar grande.

e que a vergonha era uma forma de vaidade.

e que a urgência do contato é ferida do tempo. do tempo que fere, frio, a pele de dentro da gente.

sábado, 20 de março de 2010

tirinha

(da depressão ansiosa)

quadro 1: afundada no sofá, camuflada sob um edredon, ela pede, não quero ver ninguém hoje. nem atender ao telefone! quero que me esqueçam!

quadro 2: mesma ilustração, sem balão e acrescida de uma caixinha com duas palavras, no topo, à esquerda: minutos depois...

quadro 3: mesma ilustração, volta o balão: snif... ninguém se lembra de mim!

domingo, 7 de março de 2010

asfalto ralo

de costas para o dia
nada pode iluminá-la
seu rosto coberto de algas
é apenas espera

de costas para o dia
cerca viva de silêncios
ela só quer poeira
vento tempestade

ela só quer
ela só

de costas para o dia
ela só quer se pôr

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

estudando

entrevistinha minha e do osi para o programa 'perfil literário', da rádio unesp. foi uma delícia fazer junto com ele!
(número 440)

...

e então ela percebeu que aquele tumulto no estômago não era senão o caos que não conseguia digerir.

...

era dessas pessoas que se sentiam mal se desfrutassem sozinhas de um prazer, fosse qual fosse. tanto assim que, ao ouvir a sogra elogiar o seu forno de microondas, que nunca tinha podido comprar, não conseguiu mastigar aquele risoto que era dos seus favoritos - uma receita especial que levava camarão e manteiga. e, no mês seguinte, fez chegar à casa de dona quitéria um presente duro e retangular. um presente que, ainda que comesse um naco do seu orçamento, iria lhe devolver o sabor das refeições.

...

vacilante como o fumante arrependido que torcia pela falência da indústria do cigarro - o qual, por conta própria, não tinha coragem de abandonar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

historietas

1.
quando se sentir só, escreva, sugeriu o pai à filha. no dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrou as paredes da casa cobertas de lápis.

2.
pela porta entreaberta, escapou um gemido, comprido e solteiro, seguido de silêncio. depois, veio o cachorro, com o focinho vermelho de sangue.

sábado, 5 de dezembro de 2009

essencial

às vezes, desejo entregar meu corpo ao sacrifício. entrego tudo: dedos, mãos, braços, pernas, olhos, cabeça. só peço que deixem, arfando e borbulhando de sangue, essa caixa de dores que é o meu peito.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

tempo

as nuvens se fecham sobre o bloco de papel. um breve sol, quase clandestino, seca as tintas da canção. que morrem desentoadas, antes mesmo de se fazerem ouvir. vai chover, deu no rádio. vai chover feio sobre a terra esvaziada.


- agora eu sei: a saudade é o sentimento do tempo.
- é verdade. mas, sem imaginação, não existe memória. nem saudade.


*a saudade é o próprio cheio vazio*

crédito: ilustração de osi nascimento, feita para o livro 'ciranda de nós', editora grua, são paulo, novembro de 2009.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

formalidades

bem, ela diz que está bem. mas existem outras coisas que ela não diz. ela não diz que tem a boca seca e o coração ansioso. que dorme mal, muito mal, sonhando com tudo aquilo que não foi. que não sabe se ainda será. que se angustia com calendários candelabros caleidoscópios. que sente medo de ficar sozinha. que tem pavor de chegar ao fim do mês sem dinheiro para pagar as contas. sem ter rido tanto quanto gostaria. sem ter amado pelo menos um pouco. sem ter sentido saudade.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

melhor

sua presença invisível já não me machuca. já não sinto culpa por ter perdido você antes da perda final e definitiva. que não houve. descobri agora que são duas a morte. ou seriam duas a vida?