domingo, 17 de março de 2019

perdão

perdoai-nos, senhor
vós que não pensais
vós que não ouvis
você que apenas transpira

você que não é humano
e não tem pele nem pelos
que se arrepiem de frio

você que não teme
não treme e não tem


você que nunca foi
currado ou estuprado
nunca sentiu a dor do parto
nunca sangrou em toda
a sua santa eternidade

você que não enxerga
que não abre as pernas
que jamais sentiu na boca
a língua molhada e
a saliva quase seca

você, que nunca desejou a mãe
você que não tem mãe
que não tem lágrimas
ou por quem chorar

você que jamais pisou
o tomo do sertão
fosso escuro
chamado coração

sábado, 16 de março de 2019

oração

tragai-me, senhora
e dissipai-me por entre
a fumaça dura das horas

cinza voo livre
divino

absolvei-me leve
batizai-me
com seu bafo

eu vejo, mãe,
como a morte
namora a vida

fazei-me palha
coco coqueiro
braços esticados
peito sem medo

deixai-me respirar
deixa-me pra lá

profecia 13

um dia, numa só puxada, deus o tragou de sobre a terra.

(...)

e todas as vezes que eu te chamava eu falava a mim mesma.

borrifos

somos minúsculos -- microscópicas gotículas de nós mesmos.

terça-feira, 5 de março de 2019

(Ciro)


A lua ainda míngua, e a maré seca em mim as almas dos peixes que morreram. A água bate na pedra, bate na pedra, bate na pedra. E a pedra bate em mim.

O mar me comunica a dor. Quero conchas infinitas que encerrem o conteúdo das coisas, mas tudo ou falta, ou nasce grão de novo, para morrer na sola do meu calcanhar.

Piso numa rocha bamba que me balança. Só agora eu vejo a queda, e despenco pra dentro de mim. O coelho branco me vê e corre, penetra o vão escuro das pedras. É lá que ele está.

Uma onda explode forte, e o marulho agoniza sob o sol. Uma ponta de cigarro. A água escorre e não volta mais, nunca mais a mesma. Molho o pé e a praia já é outra, sempre outra. E outra e outra onda vêm, e a dor fica, pesada no peito, aguardando a erosão.

(25.1.2001)

domingo, 3 de março de 2019

incorpórea

fio de saliva
escorro acesa
por entre bocas
elétricas

dentes amarelos
me recortam

sábado, 2 de março de 2019

costuras

um feixe fino de algodão
escoa pela garganta
e se projeta no ar
quer língua quer encontro

quer raiz aérea
galeria subterrânea
idioma de eulália

duto entre quases e
concretos
entre folhas e
pensamentos

linha entre frutos e unguentos
alavancas e sequazes
alho bolsa cabos
fetos violentados
janelas apagadas
rizomas de patuás
ex-votos e porradas

um panteão de entidades
cruzes danças verbos
ossos aprisionados
em uma pequena
redoma ponto

redoma limpa
asséptica
assimétrica
embora opaca
e rachada
arranhão
na própria pele

pedro

peito aquoso
olhar infinito
itararé infuso

pirata mais manso
dos nossos mares
rebelde em rascunho
micro homem em curso

nara

desenho-poema
de lápis de giz
de ossos e de coração

o risco o traço
que se ilumina
nervos de tinta
nau em furacão

alvenaria

numa janela, a noite
na outra, a queda
num andar, o hoje
em outro, a tinta das horas

um traço, uma parede
reboco, gota de sangue
o tempo na porta
as rugas no lençol

peixe sobre o telhado
tapete no parapeito
labirinto na escada
campainha de mandala

entre na sala de estar
sofá, raiz, a rede branca
entre e se deixe estar
a casa está em construção