quinta-feira, 27 de setembro de 2018
sábado, 8 de setembro de 2018
a corda, amor
sentiu uma mordida no estômago
levou a mão à barriga, sem pensar:
encontrou ali, saindo pelo umbigo,
um fio áspero, fibroso, ressequido
passou os dedos, leu a ondulação,
eriçada qual cabelo maltratado
e puxou com força, de uma vez,
na tentativa de apagar o espanto
puxou e puxou, duas mãos na ação,
o fio trançado sinuoso e volteado
até enrolar diante de si uma corda
encardida encrespada e encarnada
suspirou, amolecida de cansaço,
se recostou laranja na cadeira
passou de novo a mão no ventre
oco, murcho, cavo. e gotejante
levou a mão à barriga, sem pensar:
encontrou ali, saindo pelo umbigo,
um fio áspero, fibroso, ressequido
passou os dedos, leu a ondulação,
eriçada qual cabelo maltratado
e puxou com força, de uma vez,
na tentativa de apagar o espanto
puxou e puxou, duas mãos na ação,
o fio trançado sinuoso e volteado
até enrolar diante de si uma corda
encardida encrespada e encarnada
suspirou, amolecida de cansaço,
se recostou laranja na cadeira
passou de novo a mão no ventre
oco, murcho, cavo. e gotejante
sábado, 1 de setembro de 2018
Como entreter crianças em dias de chuva
(valeu, yoko)
Apoie a mão sobre uma superfície lisa, a palma para baixo. Abra os dedos, de modo a deixar um espaço entre polegar, indicador, médio, anelar. Mindinho.
Apanhe uma faca, faça furos. Na superfície lisa. Entre os dedos. De modo a sentir medo, mas não se machucar.
Encha um copo de gasolina. Despeje sem pressa sobre a língua. Risque um fósforo até surgir a chama, incandescente. Deite o fogo sobre um pequeno rolo de pano, embebido em álcool. Cuspa para ver o fogo ganhar forma.
Grite. Berre. O mais alto que puder. E, quando tudo ficar silencioso, urre. De novo. E mais uma vez. Até faltar voz. Até faltar ar.
Inspire. Se sente. Coluna reta, pernas indianas, olhos fechados. Boca aberta para expirar. Inspire. Sinta o ar que entra e que sai, em orgânica surdina. Estire a língua. Mostre ao primeiro que aparecer.
Enfie um dedo na orelha. Escolha um indicador. Decida a orelha. Roce, com a unha, a superfície labiríntica onde se acumulam pó, cera, fungos. Cavouque até recolher material suficiente. Enrole com ajuda do polegar. Faça uma trouxinha e lance no ar.
Mão fechada, estique o braço como se fosse doar sangue. Cruze o outro braço por cima, na altura do cotovelo, e dobre o braço de baixo até prender ali o braço de cima, numa banana.
E reze para a chuva passar.
Apoie a mão sobre uma superfície lisa, a palma para baixo. Abra os dedos, de modo a deixar um espaço entre polegar, indicador, médio, anelar. Mindinho.
Apanhe uma faca, faça furos. Na superfície lisa. Entre os dedos. De modo a sentir medo, mas não se machucar.
Encha um copo de gasolina. Despeje sem pressa sobre a língua. Risque um fósforo até surgir a chama, incandescente. Deite o fogo sobre um pequeno rolo de pano, embebido em álcool. Cuspa para ver o fogo ganhar forma.
Grite. Berre. O mais alto que puder. E, quando tudo ficar silencioso, urre. De novo. E mais uma vez. Até faltar voz. Até faltar ar.
Inspire. Se sente. Coluna reta, pernas indianas, olhos fechados. Boca aberta para expirar. Inspire. Sinta o ar que entra e que sai, em orgânica surdina. Estire a língua. Mostre ao primeiro que aparecer.
Enfie um dedo na orelha. Escolha um indicador. Decida a orelha. Roce, com a unha, a superfície labiríntica onde se acumulam pó, cera, fungos. Cavouque até recolher material suficiente. Enrole com ajuda do polegar. Faça uma trouxinha e lance no ar.
Mão fechada, estique o braço como se fosse doar sangue. Cruze o outro braço por cima, na altura do cotovelo, e dobre o braço de baixo até prender ali o braço de cima, numa banana.
E reze para a chuva passar.
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