rios cortam como estrias a carne densa da morte
tietê no leito de mim
tapa os ouvidos, narinas, esfinge
brumadinho miraí mariana
a lama mata
meu beijo
sua barba
seu olho
o nós que não quer se pôr
brasis desfilam afiados e armados
eldorado revive
roda viva
um ano
perdido
no calendário
domingo, 27 de janeiro de 2019
sábado, 19 de janeiro de 2019
natureza morta #22
areia no peito
range e respira
retém e repele
o ar dos porões
argila na mente
estica e estufa
espreme e expulsa
ao tom de senões
cimento nos olhos
empasta e embota
tranca e transplanta
a cor dos pulmões
semente no ouvido
extrai e expande
almeja e alveja
ao som de botões
range e respira
retém e repele
o ar dos porões
argila na mente
estica e estufa
espreme e expulsa
ao tom de senões
cimento nos olhos
empasta e embota
tranca e transplanta
a cor dos pulmões
semente no ouvido
extrai e expande
almeja e alveja
ao som de botões
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
canção do extermínio
quatro armas para cada cidadão de bem
cinquenta e sete milhões de votos
para a pátria de ninguém
na minha terra tem palmeiras
onde canta o aiatolá
a ave que levanta a taça
mia como gata angorá
o ministério tem mais fiéis
que o baú da felicidade
nosso céu, mais tempestades
nossas valas, atrocidades
indígenas, quilombolas,
gays e marielles
um tiro em cada livro
uma ode em cada tiro
não permita deus que eu viva,
aceite e torça por esse vírus
não permita deus que eu morra
de um perdido bolsominion
cinquenta e sete milhões de votos
para a pátria de ninguém
na minha terra tem palmeiras
onde canta o aiatolá
a ave que levanta a taça
mia como gata angorá
o ministério tem mais fiéis
que o baú da felicidade
nosso céu, mais tempestades
nossas valas, atrocidades
indígenas, quilombolas,
gays e marielles
um tiro em cada livro
uma ode em cada tiro
não permita deus que eu viva,
aceite e torça por esse vírus
não permita deus que eu morra
de um perdido bolsominion
fado
vislumbra o abismo
comprido aos seus pés
vislumbra o abismo
destino de toda jornada
vislumbra o abismo
suspira e abre os braços
vislumbra o abismo
aderna, mergulha e voa
comprido aos seus pés
vislumbra o abismo
destino de toda jornada
vislumbra o abismo
suspira e abre os braços
vislumbra o abismo
aderna, mergulha e voa
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
natureza morta
flocos de milho
palavras perdidas
sementes de coca-cola
na grama pisoteada
uma sombra recortada
uma soneca, um avião
sementes de guaraná
na grama transplantada
cintilantes embalagens
garrafas amassadas
sementes de fanta uva
na grama amarelada
palavras perdidas
sementes de coca-cola
na grama pisoteada
uma sombra recortada
uma soneca, um avião
sementes de guaraná
na grama transplantada
cintilantes embalagens
garrafas amassadas
sementes de fanta uva
na grama amarelada
bíblias encadernadas
corações partidos
sementes de jesus
na grama amarrotada
na grama amarrotada
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
(sem título)
massa de vermelho
no interior azul
gritos borrados
rostos abafados
batuque nu
no jardim,
as plantas secas
as árvores esqueléticas
a cadeira a balançar
casas invertidas
asas invertebradas
camas repartidas
esperança que salta
sobre as telhas
cor de terra
até despencar
até cair
e fraturar
o sonho
bala no mapa
miolo-gelatina
abre-se a cortina
sobre o corpo
que germina
no interior azul
gritos borrados
rostos abafados
batuque nu
no jardim,
as plantas secas
as árvores esqueléticas
a cadeira a balançar
casas invertidas
asas invertebradas
camas repartidas
esperança que salta
sobre as telhas
cor de terra
até despencar
até cair
e fraturar
o sonho
bala no mapa
miolo-gelatina
abre-se a cortina
sobre o corpo
que germina
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
antropofagia
canibais de aproximam, em silêncio. cercam o cadáver: um corpo estirado, inerte sob o sol, atravessado de um lado a outro por um fresco filete de sangue.
famélicos, vorazes, eles o cobrem como bichos. cheiram, fungam, revolvem e reviram o defunto. arrancam com unhas e dentes colares, relógios, anéis e pulseira. devoram cinto e sapatos de couro. deglutem algodão egípcio, jacarés e cavalos montados.
satisfeitos, se vão. deixam para trás apenas o resto. o corpo nu, o filete de sangue, o homem.
(((enxuga)))
antropofagia
canibais rodeiam em silêncio
o corpo inerte sobre o chão
fungam cheiram resfolegam
famélicos vorazes e ferozes
cravam dentes, saliva e unhas
em anéis relógio algodão egípcio
satisfeitos, se vão velozes
deixam para trás somente o resto
o defunto nu, o morto, o homem
famélicos, vorazes, eles o cobrem como bichos. cheiram, fungam, revolvem e reviram o defunto. arrancam com unhas e dentes colares, relógios, anéis e pulseira. devoram cinto e sapatos de couro. deglutem algodão egípcio, jacarés e cavalos montados.
satisfeitos, se vão. deixam para trás apenas o resto. o corpo nu, o filete de sangue, o homem.
(((enxuga)))
antropofagia
canibais rodeiam em silêncio
o corpo inerte sobre o chão
fungam cheiram resfolegam
famélicos vorazes e ferozes
cravam dentes, saliva e unhas
em anéis relógio algodão egípcio
satisfeitos, se vão velozes
deixam para trás somente o resto
o defunto nu, o morto, o homem
sábado, 8 de dezembro de 2018
lastro
totem
dente
ferrugem
lâmina
na noite
na nuca
oxidada
ente
barco
origem
a margem
a pedra
o estilhaço
de papel
carinho
corrente
vertigem
portos,
aeroportos
sintomas
de saudade
a tesoura
na nuvem
tempestade
horizontes
um mapa
uma rede
no anelar
correios
celas
tabuleiro
pó e fumaça
cifras de
um mundo
pós-verdade
sangue
cinza
arenoso
cenas de
um brasil
que é outra
cidade
dente
ferrugem
lâmina
na noite
na nuca
oxidada
ente
barco
origem
a margem
a pedra
o estilhaço
de papel
carinho
corrente
vertigem
portos,
aeroportos
sintomas
de saudade
a tesoura
na nuvem
tempestade
horizontes
um mapa
uma rede
no anelar
correios
celas
tabuleiro
pó e fumaça
cifras de
um mundo
pós-verdade
sangue
cinza
arenoso
cenas de
um brasil
que é outra
cidade
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
sábado, 8 de setembro de 2018
a corda, amor
sentiu uma mordida no estômago
levou a mão à barriga, sem pensar:
encontrou ali, saindo pelo umbigo,
um fio áspero, fibroso, ressequido
passou os dedos, leu a ondulação,
eriçada qual cabelo maltratado
e puxou com força, de uma vez,
na tentativa de apagar o espanto
puxou e puxou, duas mãos na ação,
o fio trançado sinuoso e volteado
até enrolar diante de si uma corda
encardida encrespada e encarnada
suspirou, amolecida de cansaço,
se recostou laranja na cadeira
passou de novo a mão no ventre
oco, murcho, cavo. e gotejante
levou a mão à barriga, sem pensar:
encontrou ali, saindo pelo umbigo,
um fio áspero, fibroso, ressequido
passou os dedos, leu a ondulação,
eriçada qual cabelo maltratado
e puxou com força, de uma vez,
na tentativa de apagar o espanto
puxou e puxou, duas mãos na ação,
o fio trançado sinuoso e volteado
até enrolar diante de si uma corda
encardida encrespada e encarnada
suspirou, amolecida de cansaço,
se recostou laranja na cadeira
passou de novo a mão no ventre
oco, murcho, cavo. e gotejante
sábado, 1 de setembro de 2018
Como entreter crianças em dias de chuva
(valeu, yoko)
Apoie a mão sobre uma superfície lisa, a palma para baixo. Abra os dedos, de modo a deixar um espaço entre polegar, indicador, médio, anelar. Mindinho.
Apanhe uma faca, faça furos. Na superfície lisa. Entre os dedos. De modo a sentir medo, mas não se machucar.
Encha um copo de gasolina. Despeje sem pressa sobre a língua. Risque um fósforo até surgir a chama, incandescente. Deite o fogo sobre um pequeno rolo de pano, embebido em álcool. Cuspa para ver o fogo ganhar forma.
Grite. Berre. O mais alto que puder. E, quando tudo ficar silencioso, urre. De novo. E mais uma vez. Até faltar voz. Até faltar ar.
Inspire. Se sente. Coluna reta, pernas indianas, olhos fechados. Boca aberta para expirar. Inspire. Sinta o ar que entra e que sai, em orgânica surdina. Estire a língua. Mostre ao primeiro que aparecer.
Enfie um dedo na orelha. Escolha um indicador. Decida a orelha. Roce, com a unha, a superfície labiríntica onde se acumulam pó, cera, fungos. Cavouque até recolher material suficiente. Enrole com ajuda do polegar. Faça uma trouxinha e lance no ar.
Mão fechada, estique o braço como se fosse doar sangue. Cruze o outro braço por cima, na altura do cotovelo, e dobre o braço de baixo até prender ali o braço de cima, numa banana.
E reze para a chuva passar.
Apoie a mão sobre uma superfície lisa, a palma para baixo. Abra os dedos, de modo a deixar um espaço entre polegar, indicador, médio, anelar. Mindinho.
Apanhe uma faca, faça furos. Na superfície lisa. Entre os dedos. De modo a sentir medo, mas não se machucar.
Encha um copo de gasolina. Despeje sem pressa sobre a língua. Risque um fósforo até surgir a chama, incandescente. Deite o fogo sobre um pequeno rolo de pano, embebido em álcool. Cuspa para ver o fogo ganhar forma.
Grite. Berre. O mais alto que puder. E, quando tudo ficar silencioso, urre. De novo. E mais uma vez. Até faltar voz. Até faltar ar.
Inspire. Se sente. Coluna reta, pernas indianas, olhos fechados. Boca aberta para expirar. Inspire. Sinta o ar que entra e que sai, em orgânica surdina. Estire a língua. Mostre ao primeiro que aparecer.
Enfie um dedo na orelha. Escolha um indicador. Decida a orelha. Roce, com a unha, a superfície labiríntica onde se acumulam pó, cera, fungos. Cavouque até recolher material suficiente. Enrole com ajuda do polegar. Faça uma trouxinha e lance no ar.
Mão fechada, estique o braço como se fosse doar sangue. Cruze o outro braço por cima, na altura do cotovelo, e dobre o braço de baixo até prender ali o braço de cima, numa banana.
E reze para a chuva passar.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
terça-feira, 31 de julho de 2018
véspera
a chuva na janela romanceia o mundo.
mas lá fora é frio, é feio, é sujeira pelo chão. é rádio fora de sintonia, é nenhuma estação.
o ônibus corre, os carros em zigue-zague. os relógios, tal espetos, se sucedem no atraso. não há tempo. tempo nunca houve.
por isso a linha laranja que traça a bicicleta entre os automóveis. por isso a esperança. por isso a mãe que leva o filho pela mão para a escola. por isso o homem que vende guarda-chuva e água mineral para quem passa a pé. por isso.
mas lá fora é frio, é feio, é sujeira pelo chão. é rádio fora de sintonia, é nenhuma estação.
o ônibus corre, os carros em zigue-zague. os relógios, tal espetos, se sucedem no atraso. não há tempo. tempo nunca houve.
por isso a linha laranja que traça a bicicleta entre os automóveis. por isso a esperança. por isso a mãe que leva o filho pela mão para a escola. por isso o homem que vende guarda-chuva e água mineral para quem passa a pé. por isso.
domingo, 29 de julho de 2018
eclipse
era nuvem
era noite
era espera
era a névoa
infinda
dentro de mim
crianças interrogavam o céu
preto, amarelo, cinza, azul
-- ainda falta o vermelho!
no peito
na garganta
no ventre
era a neblina
a nos permitir
a consumar a gente
era noite
era espera
era a névoa
infinda
dentro de mim
crianças interrogavam o céu
preto, amarelo, cinza, azul
-- ainda falta o vermelho!
no peito
na garganta
no ventre
era a neblina
a nos permitir
a consumar a gente
quarta-feira, 25 de julho de 2018
respiração
uma verdade curiosa dessa coisa chamada vida é que, se algo provoca muita ansiedade, a frustração pode ser um grande alívio.
sexta-feira, 22 de junho de 2018
epitáfio
amei
mais do que cabia em mim
senti
por todos os poros e silêncios
perdi
tanto quanto eu devia ganhar
gravei
episódios que eu queria no ar
pulmão pulso coração
espiral bolha sabão
noite tarde fria insolação
um suspiro em cada mão
mais do que cabia em mim
senti
por todos os poros e silêncios
perdi
tanto quanto eu devia ganhar
gravei
episódios que eu queria no ar
pulmão pulso coração
espiral bolha sabão
noite tarde fria insolação
um suspiro em cada mão
Assinar:
Postagens (Atom)