A lua ainda míngua, e a maré seca em mim as almas dos peixes que morreram. A água bate na pedra, bate na pedra, bate na pedra. E a pedra bate em mim.
O mar me comunica a dor. Quero conchas infinitas que encerrem o conteúdo das coisas, mas tudo ou falta, ou nasce grão de novo, para morrer na sola do meu calcanhar.
Piso numa rocha bamba que me balança. Só agora eu vejo a queda, e despenco pra dentro de mim. O coelho branco me vê e corre, penetra o vão escuro das pedras. É lá que ele está.
Uma onda explode forte, e o marulho agoniza sob o sol. Uma ponta de cigarro. A água escorre e não volta mais, nunca mais a mesma. Molho o pé e a praia já é outra, sempre outra. E outra e outra onda vêm, e a dor fica, pesada no peito, aguardando a erosão.
(25.1.2001)
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